O interior, por Tiago Pereira, Fumaça

O interior. Não sei bem explicar o que é que é o interior.

Ouço muitas vezes a expressão e penso sempre que estão a falar da parte de dentro de uma maçã. Não faço a mínima ideia o que é que isso quer dizer. O interior. Chego sempre à conclusão que estão a falar daqueles lugares que estão mais longe das grandes vontades. Tanto faz ser numa montanha perdida no meio do país, ou numa aldeia em Trás-os-Montes, ou ainda num bairro qualquer numa zona metropolitana.

Durante muito tempo, umas das coisas que me mais incomodava era perguntar a alguém de onde era e responderem-me sempre com a cidade mais conhecida e mais perto do lugar onde nasceram. Depois perguntava o porquê da resposta e diziam-me que aquele lugar ninguém conhece. As grandes cidades não conhecem o país e são sempre pessoas que já estão fora deste lugares que respondem assim.

Mas como somos educados para dar nomes às coisas e como queremos colocar tudo em caixas e caixinhas, vamos inventando definições maiores do que nós. Palavras-contentores onde tudo cabe e que nos esmagam: Identidade, Património, Tradição, Autenticidade.

E, às vezes, as coisas são bem mais simples. A senhora vestida de preto, porque está de luto num quintal algures numa aldeia do norte do país, que agarra no alguidar de plástico e diz: “A Tradição é o que está à mão.” Ou o grupo que, por trás de uma rocha gigante numa região montanhosa, trajado e preparado para gravar, reclama pela canção que lhes foi roubada, porque a canção era dali e levaram-na.

E é isso de que falamos, se calhar, quando falamos do interior: é aquilo que está mesmo longe dos poderes de decisão. E a única coisa que posso explicar sobre o interior é isso. São lugares esquecidos das decisões políticas, sociais e económicas e onde poucos vão para saber exatamente como é viver ali, e por isso partem logo do princípio que ninguém conhece esses lugares, porque em Lisboa e no Porto não conhecem o país e muitas vezes até têm vergonha dele.

E os discursos sobre esse interior e sobre essas definições complexas complicam tudo. Cada uma destas pessoas tem a sua definição do que é cada uma destas palavras-contentores e, muitas vezes, não lhes fazem as perguntas, porque a maior parte das vezes nem vão lá, ou, quando fazem, criam processos internos complexos de resolver.

Um dia um músico de Águeda, curioso com uma tradição familiar, foi perguntar à mãe porque fazia ela um bolo de uma determinada maneira:

  • “Oh mãe, porque fazes esse bolo em dois tabuleiros?”
  • “Porque a tua tia já assim fazia”, respondeu-lhe a mãe.

Ele foi, então, perguntar à tia a mesma questão, e ela respondeu:

  • “Porque a tua avó também faz assim.”

E ele foi então perguntar à avó e, desta vez, a resposta foi diferente e esclarecedora:

  • “Porque eu não tinha um tabuleiro grande. Tive de fazer o bolo em dois.”

E, lá está, muitas vezes, perpetuam-se práticas, erros e vícios porque ninguém vai lá fazer a pergunta. E por isso, muitas vezes, não se consegue entender esse interior: não se entende a música que ali se produz, que é frágil, muitas vezes mal tocada, desafinada, perante os parâmetros que assim foram definidos, e o artesanato igual é tosco, não é entendível, as formas não são claras, os materiais são rudimentares e as peças mal acabadas.

Mas esse interior é feito de pessoas, pessoas que muitos até podem dizer que são limitadas, mas são pessoas que têm coisas a dizer, que criam relações com elas próprias, com os seus instrumentos – uns para fazer esse artesanato, outros essa música estranha. Essas pessoas chegam-se à frente e fazem, demonstram essa vontade, esse amor. Uns porque lhes foi diagnosticada a doença de Parkinson e decidiram então fazer bonecos em cortiça para enganarem a doença. Outros porque têm uma voz e a exploram. Outros porque até têm um cavaquinho que até lhe falta uma corda, mas que nele tocam todos os dias. E muitas vezes até têm de gritar:

  • “Ah! Ouçam. Eu estou aqui, quero dizer que isto sou eu, pois eu tenho muita coisa para dizer, para mostrar. Eu desenvolvi perícias únicas por teimosia e afecto.”

E estas pessoas, amam tanto aquilo que fazem, amam de uma forma tão maior, que podem ser qualquer coisa, e, se calhar, temos mesmo de lhes chamar Eremitas, e a seguir perguntar: o que é um Eremita?

É uma dessas pessoas que vivem longe dos poderes de decisão e que têm amor pelo seu interior. Se calhar é isso que temos mesmo de entender: um Eremita é alguém que tem amor pelo seu interior. E o que é o interior? Pois é, ainda não sabemos.

Não fazemos a mínima ideia do que é o interior.

Tiago Pereira Documentarista, diretor artístico da A Música Portuguesa a Gostar dela Própria.

João Pinheiro @joaopinheiro