Ontem, numa breve conversa com uma amiga que não é funcionária pública, depois de ouvir alguns desabafos calmos e educados de desagrado em relação à greve prevista para hoje, rematei a conversa com a expressão que titula esta publicação.
A pessoa em causa não foi nada agressiva ou indelicada, apenas manifestou aquele desagrado do género: “outra greve, que chatice” ou “que incómodo esta coisa de fazerem greve” ou ainda “que espertinhos a fazerem greve antes do fim-de-semana”!
A minha resposta foi, como disse: “Pessoas satisfeitas não fazem greve!"
Para mim, esta resposta diz tudo!
Quem não trabalha na função pública pode fazer algo que nós não podemos, pois são raros os casos em que há milhares de trabalhadores dependentes do mesmo patrão no sector privado. Na maioria dos casos, pode chegar junto do patrão e dizer-lhe: “Olhe, eu acho que o meu trabalho está muito mal pago. Por isso, se não me fizer uma proposta que me satisfaça, eu ir-me-ei embora.” Nós não!
Uma considerável percentagem dos trabalhadores em funções públicas e de funcionários públicos são pessoas altamente qualificadas, sendo difícil encontrar alternativas. Para além de que alguns já dedicaram décadas àquele serviço. Quando eles saem, dá barraca. Estarão, certamente, recordados da recente bronca com os exames nacionais. O mesmo não sucede no sector privado. Atenção, eu não estou a desvalorizar os trabalhadores do sector privado. Estou apenas a dizer que é mais fácil mudar de um posto de trabalho para outro, numa outra empresa, quando o trabalho não é tão específico, nem exige o mesmo tipo de qualificações.
Depois, pergunto, quem é que gosta de estar 7, 8, 12… horas à espera de ser atendido num hospital? Ou… quem é que aprecia ter de se deslocar 30, 40 ou mais quilómetros para ir tratar dum papel, a uma repartição, e ter de estar à espera 3 horas? Pois, os funcionários públicos não apreciam essas gentilezas, nem me consta que os do sector particular tenham esse tipo de gosto!
Agora, permitam-me falar da área na qual sou especialista, há mais de 30 anos, a educação.
Já sei que não gostaram da bronca com os exames, calculo. Então e da falta de professores? E da falta de vagas nas escolas sobrelotadas? E das escolas que são congeladores de Inverno e saunas de Verão?
Deixo, apenas, mais um exemplo. Deverão saber que, nas escolas, não existem computadores suficientes para os professores prepararem as suas aulas e tratarem de toda a burocracia inerente à sua profissão e de toda aquela que lhes têm acrescentado. Também deverão saber que a Internet nas escolas é uma lástima! Deverão, ainda, saber que, há cerca de 4 anos, o MECI (Ministério da Educação, Ciência e Inovação) emprestou um computador a cada professor e a cada aluno, em conjunto com um acesso à Internet. Pois bem, o material era tão bom que os dos alunos começaram logo a avariar (alguns nem chegaram a trabalhar…) e o que me calhou deixou de funcionar, tal como a ligação à Internet, no ano passado.
Pois, como devem já estar a calcular, o MECI não me voltou a entregar um PC para eu poder dar as minhas aulas (sim, as minhas aulas já não são como eram há 30, 40 ou 50 anos atrás), nem ligação à Internet, nem para eu trabalhar em casa! Portanto, eu tive de, há anos, comprar um PC (já comprei vários, para o mesmo fim, não foi para jogar) para trabalhar em casa e, agora, num mês, tive de gastar 63% do meu vencimento disponível para comprar um portátil mediano para poder levar para a escola! A Internet também sou eu que a pago! Até a mochila que eu preciso para o trabalho foi comprada por mim!!! Ou eu fazia essa despesa ou a minha sanidade mental entraria em colapso, por não ter as condições necessárias para ajudar os meus alunos a aprender Inglês. Reparem, OS MEUS ALUNOS SÃO OS VOSSOS FILHOS!
Portanto, da próxima vez que se sentirem incomodados com uma greve da função pública, dirijam a vossa raiva contra os alvos correctos: aqueles que nos cobram impostos a todos, como e quando querem; aqueles que abusam de nós e desbaratam os nossos recursos, dando-nos muito pouco em troca; aqueles que têm o monopólio da violência e a dirigem contra pessoas que, pacificamente, se manifestam contra o caminho que as suas políticas erráticas levam; aqueles que lutam pacificamente pelo futuro do ambiente e das futuras gerações; aqueles que destroem os serviços públicos, para os quais os nossos impostos deviam de ser adequadamente canalizados, para os substituirem por contratos com empresas privadas que, essas sim, sugam o nosso dinheiro e ainda nos fazem pagar novamente pelos serviços!
E, por favor, não se esqueçam que “Pessoas satisfeitas não fazem greve”! E, já agora, até trabalham muito melhor!!!